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dezembro 29, 2004
Onde está o Wally?

Foto:João Matos
O Natal passou por mim como se de uma leve brisa se tratasse. Senti o meu cabelo ondular ligeiramente, não o suficiente para o despentear e deixar-me com aquele look de Wicked Witch of the West.
Nada de espírito natalício, nem sinal do genuíno sorriso de boa-vontade que se apodera da minha pessoa na noite de consoada, rien! O meu corpo esteve presente, o meu espírito dormente – nem sequer se deu ao trabalho de se ausentar e viajar por aí. Procurei o Natal como os miúdos procuravam o Wally. Nem sombra da sua presença na minha alma.
Dias depois ainda dou por mim a tentar perceber que raio se passou com o Natal, com este ano de 2004 ou comigo. Também não tenho tempo para mais reflexões: vem aí a porra do Ano Novo, outra trapalhada emocional!
Publicado por puta_madre às 09:41 PM
dezembro 21, 2004
Puta que pariu a calçada portuguesa
Bem sei que aos olhos de muitos (ou talvez não) parece um sacrilégio mas tenho que soltar o verbo: cada vez mais odeio a calçada portuguesa.
Belíssima arte secular? Sem dúvida, mas reminiscência de glórias passadas. Já estou saturada de olhar para o passado que parece apontar-nos o seu dedo acusador e dizer: “Hoje não sois nada!”.
Para além disso, não sei se já repararam ou sentiram na pele, a calçada portuguesa constitui um verdadeiro perigo para os tornozelos displicentes que caminham pelas ruas do nosso “fair Portugal” (“Vá para fora cá dentro!”. Hum, não sei porquê mas este slogan faz-me sempre lembrar a palavra duodeno…). Eu infelizmente sou vítima recorrente desta “malfeitora”, torcendo os pés em tudo o que é irregularidade.
É claro que como qualquer Português que se preze babo de orgulho ao ver o espectacular desenho na calçada que envolve o Padrão dos Descobrimentos, por exemplo. O que não impede que fique irritada até à raiz dos cabelos com os calhaus salientes que pavimentam os nossos passeios. E não me digam que são os ratos ou as raízes das árvores porque, que eu saiba, em Paris também há ratos e raízes e não vi nenhum passeio levantado. Para compensar o pavimento à prova de entorses, temos que aturar os franceses… Eh voilá! Nem tudo são rosas.
Enfim, a minha zanga com a calçada culminou no fatídico dia 10 do corrente mês, numa queda semi-aparatosa em que lixei o pé direito. Lá se foram as compras de Natal feitas com tempo e, consequentemente, cancelada a muito aguardada super-produção natalícia “Puta Madre – Em Busca do Presente Perfeito”.
Não sei quando farei as pazes com a minha “agressora” visto que já não é a primeira, nem segunda, nem terceira vez (pensando bem, também não é quarta) que teima em me atirar ao chão. Acho que o objectivo desta “desalmada” é enfraquecer-me os pés e os joelhos, lenta e penosamente, até aos fins dos meus dias ou até que me curve ao peso do passado de que é produto e herdeira.
Como a rendição está fora de questão e como não vejo vontade política em erradicar este perigo para a integridade física de todos os portugueses distraídos e desengonçados como eu, só me resta o insulto. Puta que a pariu!
Publicado por puta_madre às 08:17 PM
dezembro 10, 2004
Lhasa, aka Lhasa de Sela

Lhasa de Sela
Só recentemente tomei conhecimento da existência desta brilhante criatura. Fiz uma pesquisa na net e escutei excertos do seu trabalho, li sobre as suas origens até que me deparei com a listagem das datas dos concertos de Lhasa. “Será?”, pensei eu. Bingo! 6 de Dezembro na Aula Magna - concerto a não perder.
Dediquei-me então a procurar os dois discos que editou até ao momento, tarefa que não se revelou fácil na medida em que insisti em adquiri-los em loja no território nacional. Na primeira pesquisa, a Fnac tinha o 2º disco, mas quando por lá passei só tinham o primeiro. Mas a aventura não terminou… Estando a Fnac a vender bilhetes para o espectáculo (anunciavam no placard “Lhasa de Sela – 6 de Dezembro – Aula Magna) era de esperar que houvesse uma procura específica pelos discos desta artista que está agora a ser descoberta pelo público português e que à pergunta “têm algum disco da Lhasa de Sela?” se respondesse, sem espinhas nem grandes dúvidas, sim ou não.
No entanto, a resposta foi interessante por ser demonstrativa daquilo que se pode fazer para não ajudar o cliente. A resposta foi “não, da Lhasa de Sela não temos nada, só da Lhasa”. Ao que respondi, estupefacta, de queixo caído e a ponto de lhe chamar idiota (era uma “mecita”), “sim, da Lhasa de Sela”. Ao que a criatura retorquiu “só da Lhasa”. Nesse momento, pensei como seria maravilhoso ter a força do Sangoku (*) combinada com a mente maléfica do Magneto dos X-Men. Fazia um “kaaaaaameeeeeeeeaaaaaaaaameeeeee” aquela aluada mas sobretudo dobrava uma barra de ferro na cachola do mentecapto que coordena os assistentes de loja da Fnac! Por amor de Deus!
Não seria de chamar a atenção para o facto de Lhasa e Lhasa de Sela serem a mesma pessoa, uma vez que, na capa dos cds, aparece só Lhasa como intérprete? Em sites de agendas de espectáculos, artigos de imprensa, etc, a cantora é referenciada com o nome Lhasa de Sela. A própria Fnac a anuncia como Lhasa de Sela! Isto para não falar do mais evidente: quantas Lhasas é que existirão no mundo da música? Chiça penico!
(*) A referência a esta personagem do Dragon Ball é uma dedicatória especial ao meu primo Fonzy. Fuuuuuuusão!
Publicado por puta_madre às 01:27 AM
dezembro 09, 2004
Go Dutch! – Parte II – Os tolerantes multiculturais

Estação Central de Amsterdão
Uma semana e meia doente, mais uma semana de preguiça mantiveram-me afastada de lides bloguistas e, consequentemente, de escrever a sequela da minha pequena saga holandesa.
Eram muitas as ideias e todas se emaranhavam umas nas outras. Algumas delas não tinham grande sumo, outras eram dolorosas de mais. Assim, foi na segunda-feira, dia 6, acabadinha de regressar do concerto da Lhasa de Sela na Aula Magna (fica para outro post!) que se fez luz. At last… :)
Liguei a televisão apenas para satisfazer o vício do zapping e eis que me deparo com o programa “Manhattan Connection” no GNT. Já tinha conhecimento do mesmo porque vejo o GNT com alguma frequência, mas nunca o tinha visto do princípio ao fim. A frase inicial que dava o mote ao debate de opiniões dos comentadores era a seguinte: Até onde se pode tolerar a intolerância?
A Holanda é frequentemente apontada como um modelo de uma sociedade multicultural, de mentalidade liberal e progressista, que pauta pela tolerância e abertura de espírito. Dão-se como exemplos concretos desta realidade as avultadas verbas que os holandeses concedem a programas de ajuda humanitária, a liberalização do aborto e do consumo de drogas.
Sempre me questionei sobre este conceito de “sociedade multicultural”. Isso quer dizer o quê de facto? Nada. Quer dizer apenas que coexistem num mesmo tecido social alargado, grupos sócio-culturais distintos que partilham diferentes valores e regulam a sua vida, consciente ou inconscientemente, por esses valores. Não significa que essa coexistência seja sempre pacífica nem que reúna o consenso geral da sociedade. Mais: não é sinónimo de integração, nem de longe nem de perto. Caio Blinder, um dos comentadores de serviço, reportando-se às relações entre nacionais de um país e emigrantes, argumentava que a integração é um processo complicado na medida em que existe aquilo que ele intitulou de “sentimento de estranheza” tanto dos nacionais perante emigrantes como o inverso. Com a 2ª geração de emigrantes, surge a desconfiança e medo dos nacionais (fará sentido chamar-lhes isto por oposição a indivíduos que já nasceram no país para onde os seus pais emigraram?) e o desenraizamento e frustração desta 2ª geração: a memória das suas raízes dissipa-se e a nova casa teima em não lhes abrir as portas.
Este “sentimento de estranheza” a que se refere Blinder é o fenómeno que em Antropologia se estuda – se a memória não me falha – como sendo a percepção que um grupo social tem dos “outros”. Em todas as sociedades, inclusivamente naquelas que temos por hábito chamar de primitivas, este fenómeno marca presença. Porquê? Porque é normal – todos nós estranhamos e olhamos frequentemente com desconfiança (em maior ou menor grau) para aquilo que desconhecemos. Podemos inclusivamente sentirmo-nos ameaçados, ainda que “constituir uma ameaça” possa estar a mil anos-luz das intenções dos “outros”. Parece-me que o multiculturalismo não se traduz na ultrapassagem da barreira da “estranheza” mas sim num sereno despontar de um sentimento de indiferença que vai piscando o olho ao desdém, assim como que dizendo “Nós somos nós, eles são eles.”.
Mas o que é que tudo isto e a frase mote do “Manhattan Connection” têm a ver com este post-sequela?
Tudo. Tenho que discordar da ideia instalada de que a Holanda é um país tolerante (multicultural sem dúvida!), e na sequência disso, bestial para se ir lá viver. Terá sido tolerante (eventualmente) antes de milhares de emigrantes lhe baterem à porta e de uma significativa comunidade muçulmana se ter instalado. Neste momento, mantêm a meu ver a pior fachada: a da “tolerância institucionalmente implementada”. Em conversa com a minha irmã e com outras pessoas que, ou tinham tido a sua “experiência holandesa” ou conheciam pessoas que lá viveram vários anos, descobri que não estava só na minha opinião de que os holandeses são profundamente racistas. Assim, os factos citados por Caio Blinder nessa noite de segunda-feira não me soaram a novidade: o mito de Anne Frank afasta da nossa memória o facto dos holandeses terem sido dos que mais colaboraram com os Nazis e que, em termos percentuais, foi aí que ocorreram mais mortes de judeus.
É óbvio que existem aspectos inegavelmente muito positivos num País como a Holanda. Representa um sem número de oportunidades únicas para quem for para lá estudar / trabalhar. Normalmente é o que acontece em países estruturalmente bem organizados, com relativa estabilidade social e ricos.
Mas voltando à tolerância e ao “Manhattan”. Naturalmente veio à baila a morte do realizador Theo Van Gogh. Theo Van Gogh era um indivíduo controverso, com fortes opiniões relativamente à comunidade muçulmana. Até ai tudo bem: a liberdade de expressão deve ser preservada pois é a pedra basilar das sociedades livres e democráticas. Mas Van Gogh pecava pela forma: perdoem-me mas chamar “fornicadores de cabras” aos muçulmanos é coisa que só um cabrão desvairado faria. Ò pra mim a dar asas à minha liberdade de expressão… Assim, a opinião de um desbocado esbarrou com a de um grupo social cujos elementos radicais berram bem alto e têm tolerância zero relativamente a qualquer crítica.
Desde o seu homicídio que várias perguntas bailam na minha cabeça, sendo uma das mais pertinentes a colocada no “Manhattan”: Como vai reagir esta Holanda à beira do Mar do Norte edificada? Será este o teste máximo à sua tão apregoada tolerância? Até onde se pode tolerar a intolerância, quando esta ameaça os fundamentos básicos da nossa sociedade? E se não a tolerarmos e reprimirmos de forma abrangente esta intolerância, não estaremos nós também a pôr em causa esses fundamentos? A tolerância e liberdade de expressão são para todos, ainda que as suas posições de alguma forma nos ameacem, ou só para alguns?
P.S. – Para quem resistiu até aqui e ainda não mandou este post às urtigas, recomendo apenas que vejam o “Manhattan Connection” (em Portugal passa nas noites de 2ª para 3ª, à 1h00), um exemplo de um programa de opinião muito interessante, com uma boa dinâmica, com direito até a comentários perfeitamente hilariantes. E acima de tudo sem nunca se esquecerem de que são apenas opiniões… E como diria uma personagem qualquer, num filme que agora não me lembro do título “Opiniões são como o olho do cu: toda a gente tem um”.
Publicado por puta_madre às 03:00 PM